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Esqueça a imagem do velhinho de chinelos ou pescando ao lado do neto quando pensar no futuro do investidor da previdência privada. Cada vez mais aplicadores descobrem nesses planos um meio para conquistar objetivos de qualquer tipo, e não necessariamente a aposentadoria. Benefícios fiscais e o recente ingresso de graduados gestores de investimentos nesse mercado são motivos suficientes para que qualquer aplicador que tenha uma meta para dez anos ou mais procure um Plano Gerador de Benefícios Livres (PGBL) ou, principalmente, um Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBL).
Uma comprovação dessa tendência, apregoada por executivos de seguradoras e consultores de finanças, é o crescimento do único produto oferecido no mercado cujo objetivo claramente não é a aposentadoria: os planos para menores. Em geral, esse planos são feitos para crianças pagarem estudos no futuro. Segundo dados da Federação Nacional da Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), os depósitos em planos para menores chegaram em abril, último dado disponível, a R$ 134 milhões, 139% acima do valor investido no mesmo mês do ano passado. A quantia representando mais de 6% do total investido no setor. No ano, a captação desses produtos chega a R$ 438 milhões, um volume ainda pequeno se comparado aos R$ 8 bilhões que o setor recebeu no período. Mas seu crescimento vertiginoso revela o interesse pela previdência sem a meta da renda vitalícia.
"A previdência é um instrumento realizador de sonhos de longo prazo", diz Antonio Cássio dos Santos, presidente da Fenaprevi e da Mapfre Seguros. "Quando criança, é possível pensar no pagamento da faculdade; aos 18 anos, pensa-se em comprar um carro; aos 30, em casar e comprar uma casa", explica ele. "Portanto, em cada momento da vida é possível ter sonhos de mais longo prazo." Segundo consultores de investimentos, o VGBL também tem sido muito procurado em planejamentos de sucessão, sendo um meio mais rápido e prático de transferir renda a herdeiros. Nesses casos, porém, fica difícil identificar a finalidade com que o investidor procura a previdência privada.
Outro fator de maior atratividade da previdência como aplicação de longo prazo é a queda das taxas de carregamento, que, em geral, incidem sobre os depósitos. Nos últimos meses, diversas seguradoras lançaram planos com taxa de carregamento apenas nos resgates, que podem cair a zero conforme o prazo em que o dinheiro fica investido.
Entre aqueles que já estão passando da fase de acumulação para a de resgates, a proporção dos que convertem o total acumulado em renda para os que deixam de contribuir é extremamente baixa atualmente, diz Marco Antonio Rossi, presidente da Bradesco Vida e Previdência. "Boa parte do valor acumulado fica ainda no plano, sendo resgatado conforme interesse ou necessidade", diz Rossi. Isso ocorre principalmente com quem tem patrimônio maior, diz. Alguns chegam a converter só parte do valor acumulado em renda e deixam o resto investido no plano.
Segundo Rossi, o gatilho para essa corrida à previdência como investimento de longo prazo ocorreu no início de 2005, quando se implementou a tabela regressiva de imposto de renda, que permite alíquota mínima de até 10% sobre os saques nos planos após dez anos, enquanto a antiga segue a tabela progressiva tradicional, de até 27,5%. Porém, optando por essa tributação - que decresce de 35% para 10% em dez anos -, o investidor assume a responsabilidade de ficar por um bom tempo no plano. Isso porque, se resgatar no primeiro ano, por exemplo, terá de deixar 35% do ganho no VGBL para a Receita, alíquota superior à de 20% de um fundo de renda fixa.
Na Brasilprev, os clientes que adquirem planos para menores são mais conscientes, porque resistem ao máximo em resgatar os planos, segundo José Eduardo Vaz Guimarães, diretor de marketing e produtos. Enquanto entre os clientes individuais 24% optam pela tabela regressiva, no caso dos planos para menores, são 30%, em um sinal de maior consciência do investimento de longo prazo.
Alerta de que a previdência não é mais apenas um veículo para conquista de renda vitalícia, o mercado já se articula para criar um produto diferenciado: o VGBL da saúde. Seriam planos em que os participantes poderiam resgatar recursos em condições tributárias especiais para gastos com tratamento médico. Um sistema similar já existe nos Estados Unidos, e visa a custear as despesas com saúde na velhice, que concentram cerca de 80% dos gastos na aposentadoria.
Está em estudo também a criação do VGBL Educacional, com condições especiais para quem quer recursos para bancar os estudos. Projetos de lei sobre os temas foram encaminhados ao governo, mas essas propostas esbarram na dificuldade de se identificar os recursos sacados do plano para o uso em determinado fim, tanto para a saúde como para a educação.